Telefone I
Ainda no tempo que linhas telefônicas eram negociadas como bem de valor, compra e venda, aprendíamos ainda pequenos como atender a uma chamada.
Era frequente com Kika o diálogo abaixo:
Triiimmm Trimmm
- Alô. Atende Kika
- Quééém??? Responde do outro lado da linha parecendo um gralha esganiçada.
- Você!
- Héééim???
- Oquê???
- Da onde fala?
- Da minha casa.
- Quem fala?
- Você, eu ainda estou só escutando.
Tu..tu..tu..tu.. encerra-se a ligação.
Kika coloca o fone no gancho e diz: - Na próxima ele aprende a ligar direito.
Telefone II
Kika, secretária executiva poliglota telefona para um amigo em horário comercial.
- Bom dia, posso falar com Sr. X?
- De onde fala?, retruca a telefonista
- Da minha casa, anuncia Kika
- Qual é o assunto?
- É particular
- Pode adiantar sobre o que é?
- É particular
- Fulano não se encontra
- Como assim, problemas psicológicos, depressão, algo do gênero? Irrita-se Kika
- Hããã?
- Minha filha, aprende comigo. "É de alguma empresa ou particular" em lugar de "de onde fala". Se é particular é particular, pergunta o nome e pede um minuto. A expressão "não se encontra" não existe. Secretária sempre sabe onde está o chefe, mesmo que a mulher dele não vá gostar de onde seja. Chefe não pode atender, está em reunião ou não está.
- Vou estar anotando o seu nome para ele estar retornando a ligação.
tu...tu..tu...
Caso perdido, pensa Kika
Telefone III
Kika ainda trabalha na Consul, assessorando a diretoria. É secretaria executiva do departamento de comércio exterior, daquelas que aprendeu estenografia, correspondência comercial, essas coisas que não se ensinam ou não se quer aprender mais.
O chefe anuncia de dentro da sala:
- Não estou para ninguém!
Ordem dada, ordem executada. Telefone toca:
- Bom dia, passe-me o Sr. X!, diz uma voz lusitana irritada.
- Infelizmente não posso, senhor, ele não pode atender no momento, mas, por favor, deixe seu nome que eu passo o recado
- É o Ray, de Portugal. Mas diga-lhe que necessito ter com ele com urgência! Irritação crescente no tom.
- O senhor pode repetir, por favor, não compreendi, Rei de Portugal?, com paciência de secretária.
- Sim, Ray, de Portugal e veja se já não pode passar-lhe o telefonema, retruca o português com arrogância
- Senhor, o Sr. X está ocupadíssimo, essa é uma empresa que fabrica refrigeradores e aparelhos de ar-
condicionado para o mundo todo. Está um calor dos infernos, estamos todos ocupados em atender pedidos e Portugal já não é monarquia desde 1910.
Põe o telefone no gancho e suspira. Ora, trote com essa idade!
Nesse momento grita o chefe novamente:
- Kika, se o Ray telefonar, pode passar. É nosso representante em Portugal e estou aguardando para o fechamento da meta.





